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Temporada 1 · Episódio 5

Episódio 5

O dia seguinte entrou na casa da doutora Agnes Keene sem pedir licença, do jeito que os dias entram quando a noite foi longa demais para caber num relógio. A chuva tinha recuado para um miúdo no telhado, o tipo que não desiste e também não vence, e o consultório cheirava a ácido carbólico, a lã molhada, a mostarda de emplastro e a aquele cheiro fino de gente que passou perto demais da conta. August Ward estava num quarto dos fundos, o quarto que a Keene usava para febre e para parto, uma cama mais larga que a estreita da janela, o peito nu da camisa aberta, o emplastro quente no lado direito, um vaso com vapor de eucalipto que Ned Barrow reaquecia de hora em hora como se o vapor pudesse ensinar o pulmão a trabalhar. O ronco saía fundo, desigual, e de vez em quando a tosse trazia ao lenço aquele vermelho diluído que a doutora já não fingia ser resfriado de cerca. Ela limpava, virava o homem de lado, pedia a Ned que não deixasse o emplastro esfriar, e não prometia o que a chuva da véspera tinha levado embora.

— Pneumonia grave — disse ela, baixo, para o enfermeiro, não para o doente, que ainda não tinha voltado inteiro do chão. — A corrida fez o que a corrida faz. O soro salvou a moça. O peito dele é outra prateleira, e nesta eu não tenho ampola.

Ned assentiu, as orelhas ainda vermelhas, e ficou. A Keene foi ao outro cômodo, onde Anny Grace dormia de verdade pela primeira vez desde a pilha, o braço esquerdo pousado sobre uma almofada, a manga cortada, o inchaço ainda feio e já menos tenso, a pele com aquela aurora roxa que o soro não apaga num milagre e que mesmo assim já não subia.

Anny acordou com o cheiro do fogareiro e com a luz de um novembro que, milagre pequeno, tinha sol. Demorou um instante a saber onde estava. A cama estreita, a janela, o avental da doutora passando, o pulso que doía de um jeito fundo e honesto, não daquele jeito de ferro quente da véspera. Os cachos estavam presos para trás com uma fita que não era a dela. O vestido marrom, o da lã, estava numa cadeira, a manga esquerda irrecuperável, e por cima havia um xale emprestado, grosso, de quem atende gente de madrugada. Ela mexeu os dedos da mão picada e os dedos obedeceram, lentos, como quem volta de uma viagem. A boca não tinha mais o gosto de metal. A náusea tinha ido embora. Havia fome, uma fome tímida, o tipo que só vem quando o corpo decide ficar.

A doutora viu os olhos cinza abrirem e puxou uma cadeira, sem sorriso de almanaque, com a mesma autoridade da porta da véspera, só que agora a autoridade cabia numa manhã.

— Então. A senhora voltou. Isso é bom, porque eu já tinha gasto o discurso da cascavel uma vez e não gosto de repetir para quem não ouve. Como se sente?

Anny pensou, os três pontos ainda à espera na boca, e achou que a pergunta pedia mais do que doer ou não doer.

— Eu… sinto o braço. Mas sinto ele meu. Ontem… ontem ele parecia de outra pessoa. A cabeça está quieta. Quero água. E… um pouco de pão, se houver.

Keene serviu a água, depois um naco de pão com manteiga, e olhou o pulso enquanto Anny comia, a fita métrica outra vez, o caderno, o ofício. O inchaço tinha baixado do úmero, parado abaixo do cotovelo, os dois furos ainda pretos no centro, uma fealdade que ia virar cicatriz e que a doutora tratou como se trata o que já não mata.

— O soro pegou. Não vai ficar bonito por umas semanas, e o frio deste braço vai doer em janeiro, mas a senhora fica com ele. Cascavel no pulso, moça miúda, seis a doze horas para o perigo feio. O senhor Ward trouxe a ampola antes do cinza. Eu disse a ele que tinha trazido a tempo, e ele ouviu o bastante para cair. Foi o pulmão, não o veneno. O veneno era o seu.

Anny mastigou devagar. A palavra soro ainda era nova. A palavra cinza também, dita daquele jeito, como prazo. Olhou a janela, o pátio com lama, o alazão de Ned no travessão, e só então a manhã inteira se ordenou: a pilha, o grito, a carroça, esta cama, e um homem que não estava no cômodo.

— A lenha… eu fui buscar a lenha porque ele estava tossindo. A cobra estava embaixo. Eu gritei, e ele veio. Depois a carroça. Depois a senhora. O resto… o resto está misturado. Eu falei nomes, não foi? Eu falei Clara.

— Falou Clara, falou Briggs, falou August, falou uma máquina. Eu não corrigi. Febre mistura o que a casa já misturou. O que importa é que a senhora está aqui com fome, o que, neste ofício, ainda é o melhor sinal que eu conheço.

Anny bebeu o resto da água. A mão direita, a que não estava picada, apertou a borda do prato. Os três pontos vieram, e ela deixou, porque algumas perguntas não se dizem inteiras de primeira.

— E o senhor… o senhor Ward. Onde está?

A doutora não embelezou, o que já era um respeito. Tirou o avental do colo, dobrou, pousou na mesa ao lado dos bisturis, e falou como falara das onze milhas, com o relógio à vista.

— No quarto dos fundos. Pneumonia grave, do lado direito, o tipo que a chuva e a noite e a teimosia fazem juntas. Ele montou no cavalo do Ned com o peito já ruim, foi a Chippewa, voltou com o vidro, e o chão o teve. Passou a madrugada entre febre e um pouco de juízo, o bastante para tossir e não o bastante para conversar. Ned está com ele. Eu não prometo o dia, Anny Grace. Prometo que ele não está sozinho, e que a senhora, se as pernas aguentarem, pode ir. Ele perguntou pela moça duas vezes, no meio do ronco, o que também é um sinal, só que de outro tipo.

Anny ficou sentada mais um pouco, o pão inacabado, o braço na almofada, e a frase da doutora — eu não prometo o dia — ocupou o cômodo com uma honestidade que doía e que mesmo assim ela preferiu à mentira. Pediu o vestido. A Keene ajudou a passar a manga boa, deixou o braço picado de fora, preso numa tipoia de pano, e não ofereceu discurso de coragem. Anny atravessou o vão com os pés descalços no soalho frio, o xale emprestado nos ombros, os cachos ainda com a desordem da fronha, e a manhã, atrás dela, ficou no consultório com o fogareiro e com o que já estava salvo.

O quarto dos fundos era mais escuro, a cortina meia-cerrada, o vapor subindo num fio. Ned viu-a no umbral e saiu sem pergunta, só um aceno, a porta entreaberta para a doutora ouvir se o peito piorasse. August Ward estava encostado em duas almofadas, a camisa aberta, o emplastro, o cabelo grisalho colado na testa, as mãos sobre o cobertor como duas coisas que ainda não tinham aprendido a parar de trabalhar. Os olhos, quando acharam Anny, ficaram mais jovens um instante, o mesmo instante do café da Remington, e depois envelheceram de novo, só que agora o envelhecer vinha com um alívio que o ouro nunca tinha comprado.

— A senhora… — A voz saiu do cano estreito, arranhada, e ele deixou a tosse passar antes de acabar. — A senhora abriu o olho.

Anny chegou a cadeira para perto, o bastante para a lã do vestido dizer que ela ficava, e sentou-se com o braço na tipoia, os olhos cinza no rosto dele, sem pedir licença ao peito nu, porque o peito nu agora era ofício, não recato.

— Abri. A doutora disse que o soro pegou. Disse que o senhor foi à cidade. Que trouxe a tempo. Eu… eu estava aqui e não estava. Falei Clara. Desculpe. Eu não queria misturar.

August fechou os olhos um segundo, não de sono, de conta, e quando abriu já havia água neles, a água que ele não tinha deixado sair na sala do retrato, a água de dois outonos e de uma noite de cavalo.

— Pode misturar. Clara gosta de ser nomeada. Eu é que não nomeava, e isso também é uma forma de a perder outra vez. A senhora não é ela. Eu disse isso. Continuo sabendo. Mesmo assim, quando a senhora gritou no pátio, eu ouvi o outro grito, o que eu não ouvi a tempo, e fui. Desta vez eu fui.

Anny estendeu a mão boa e pôs sobre a dele, pequena sobre a de varal, e ele não retirou. O relógio, se havia relógio naquele quarto, não se fez ouvir. Havia só o ronco, o vapor, e as duas respirações tentando achar um acordo.

— O senhor tossiu sangue na carroça. Eu vi a cor no lenço. A doutora disse pneumonia. Disse que não promete o dia. Eu queria que ela prometesse. Eu sei que a senhora Keene não mente, e mesmo assim eu queria.

— A Keene é como a cerca: não embeleza. Isso serve. Eu senti o peito na chuva do outro dia, a da tora demais, e fiz questão de não estar pior. Homem faz isso, e homem paga. A senhora não precisa assustar o pão por minha causa. Comeu?

— Um pouco. Queria que o senhor comesse também.

Ele quase riu, o riso curto que a tosse comeu no meio, e sacudiu a cabeça, mínimo.

— Depois. Agora eu quero falar, enquanto a fala ainda cabe. Tem coisa que eu não disse, e deixar de dizer outra vez… deixar de dizer é a vila, o saco, o trato. A senhora merece o horário inteiro.

Anny apertou a mão dele e não pediu que ele poupasse o peito, porque poupar o peito agora era outra forma de fechá-lo na segunda porta. Ficou. Os cachos caíram para a frente quando ela assentiu, e ele olhou aquele halo pobre de sol que atravessava a cortina, o mesmo halo da lomba, o mesmo da cozinha, e falou.

— O cavalo. O baio. A senhora viu eu entregar a rédea ao Briggs e talvez tenha achado que era só preço, o resto do ouro, um homem pagando a mais para não discutir. Era preço. Também era outra coisa. Naquele outubro eu saí de casa com o saco para investir, talhão, pinho, o que os Wards desta região chamam de futuro. No paletó eu já tinha, havia semanas, o recorte de um catálogo: uma Remington, a número dois, o preço da loja em Chippewa. Eu ia comprar a máquina num outro dia, com um dinheiro que eu tinha separado, quieto, o tipo de reserva que um homem faz quando ainda acredita que o amanhã se organiza em coluna. Quando vi os papéis da senhora no chão do bar, o verso da conta, a letra atravessando o número do Briggs, o saco mudou de ofício. Dei o ouro. Ainda faltava. A máquina custava o que o baio cobria se eu o deixasse. Então eu deixei. Não foi porque o animal valesse menos. Foi porque a senhora precisava de uma folha inteira, sem verso de farinha, e eu não ia chegar em casa com a moça e sem a porta. Clara gostava daquele cavalo. Gostava da cadeira do alpendre e do pão quente e de um bicho que vinha quando ela assobiava, mesmo eu tendo dito que cavalo não precisa de nome. Eu entreguei o baio e, de manhã, antes da senhora acordar, fui à loja. Trouxe a Remington no papel pardo. A senhora tocou o A. Eu fiquei olhando. Não disse o resto porque dizer o resto naquele café era pôr o animal no meio do presente, e o presente já era pesado. Agora eu digo. O baio pagou a sua primeira folha. Eu ainda choro o baio. Choro Clara mais. As duas coisas não se desfazem uma à outra. Um homem pode acertar uma coluna e mesmo assim ficar em dívida com a parede.

A tosse veio, longa, e Anny segurou a bacia, o ofício que a Keene fazia, até passar. Havia sangue outra vez, menos teatro do que a véspera, mais verdade. Ele limpou a boca no lenço com uma paciência irritada, a paciência de quem ainda quer acabar a frase.

Anny chorou sem ruído, as lágrimas caindo no cobertor, e procurou as palavras com os três pontos, o gelo, a procura, só que agora a procura não era medo de preço, era medo de não chegar a tempo de responder.

— Eu… eu não sabia. Eu vi o senhor no pescoço do animal, aquele segundo, e guardei sem entender. A máquina veio e eu achei que o ouro bastava para o ouro. O senhor deu o cavalo da sua filha para eu ter… para eu ter uma história que não fosse verso de conta. Eu não sei se isso se agradece. A palavra obrigada… o senhor sabe, a gente já gastou ela até o osso. Mesmo assim. Obrigada. Pela folha. Pela cama que era para dormir. Por não ser o mesmo preço. Por voltar da cidade quando o peito já não queria.

August virou a palma e segurou os dedos dela, fraco, o bastante.

— A senhora não deve o cavalo. Não deve a máquina. Não deve a casa. A casa… a casa fica. Há um papel na gaveta do escritório, o advogado de Chippewa conhece a letra, a Ellison também, se precisar de testemunha de vizinha. Não é pagamento. É teto. A senhora escreve debaixo dele o tempo que quiser. Se um dia quiser ir embora, vai. A chave a senhora já teve, no primeiro dia, do lado de dentro. Eu só peço que não apague o retrato. Clara não pede. Eu peço.

— Eu não apago. Eu passo por ele. Às vezes olho. Às vezes não, como o senhor. Isso também é respeito.

Ele assentiu, e a água voltou aos olhos, desta vez sem vergonha de quarto, um choro de homem que ainda chora a filha mesmo tendo chegado a tempo de outra, e que não pretende que as duas contas se cancelem. Anny não enxugou o rosto dele de imediato. Deixou. Depois passou o canto do xale na têmpora, o mesmo xale emprestado, e ele aceitou o pano como aceitara o chá, sem obrigado, porque o gesto já era a palavra.

— Eu queria ter estado. Naquele cobre. Na porta. O xale dela, o outro xale. Eu escolhi a estrada. A senhora sabe. Eu contei. O que eu não contei é que todos os dias, desde então, eu acordo com o horário na boca, o horário que eu perdi, e mesmo o café com a Remington, mesmo a senhora no alpendre, mesmo o pão, não apagam. Não têm de apagar. Clara não é mancha para limpar. É minha filha. Eu a enterrei e continuo pai. A senhora me deu, nestas semanas, uma casa com duas respirações, e eu fui feliz, Anny Grace, do jeito que o Wisconsin permite: feliz com geada e com culpa, feliz com a tecla de manhã e com o retrato à tarde. Feliz de ter saído do bar com a senhora e não com o talhão. Feliz de ter ouvido a senhora dizer dignidade e esperança na cozinha, com a chuva no telhado. Feliz, ontem, de não ter ficado na vila. Se o peito não aguentar o resto, que não aguente. A senhora ficou. Isso, para um homem que já chegou atrasado uma vez, ainda é um trato bom.

Anny inclinou a testa e encostou-a, um instante, no dorso da mão dele, os cachos espalhados no cobertor, e falou inteiro o que pôde, raro nela, e por isso pesado.

— Eu vou escrever. Vou escrever a casa, e a lomba, e o baio, e a doutora Keene, e o senhor não precisa de estar no quarto para eu lembrar o nome. Eu não sou Clara. Eu sou Anny Grace. O senhor me deu as duas coisas. Eu não vou devolvê-las a nenhum Briggs. Eu vou ter uma vida… uma vida que caiba numa folha inteira. O senhor ajudou nisso. Ajudou ontem. Ajudou no primeiro café. Ajudou quando virou a cara para a lareira, aquele grito, vista-se, pelo amor de Deus. Eu errei a língua da casa. O senhor não errou a minha. Fica, por favor, fica o dia. A doutora não promete, mas o senhor pode teimar. O senhor teima desde a cerca.

August olhou o teto, olhou a cortina, olhou a moça, e a voz, quando voltou, já vinha de mais longe, como se o cano tivesse estreitado outra vez e mesmo assim ele insistisse em passar a água.

— Eu espero que a senhora tenha uma vida boa. Espero que escreva até a letra cansar, e depois escreva outra. Espero que o inverno do seu braço doa menos do que o da minha conta. Espero… — a tosse, um fio, ele engoliu o grosso — espero ter ajudado nisso. Um pouco. O bastante. A senhora não precisa levar o saco. Leva a folha. E se um dia vir um cavalo baio puxando o que não deve, a senhora… a senhora traz ele para casa, se puder. Ele gasta a ferradura da frente esquerda antes. Não bate. Não deixa de beber à tarde. Clara assobiava. A senhora não precisa assobiar. Só trazer, se o ouro der. Se não der, deixa. A vida boa não depende de rédea.

— Eu trago — disse ela, e não era promessa de ouro, era promessa de ouvido. — Eu trago, se der. E mesmo se não der, eu escrevo ele. O senhor vai ouvir a tecla, de algum jeito. A casa escuta o fogo primeiro. Depois escuta a máquina. O senhor ensinou isso.

Ele quase sorriu. Os olhos, mais jovens outra vez, ficaram nela com aquela educação que não desaprende a cara dura e mesmo assim se deixa ficar. A mão, na mão dela, afrouxou um pouco, não de recusa, de cansaço. O ronco mudou, mais fundo, menos trabalho. A Keene apareceu no vão, viu, e não entrou, o bastante para a frase acabar entre os dois.

— Anny Grace — disse ele, o nome inteiro, raro na boca daquele homem, e por isso ainda mais casa do que o teto. — Vida boa. Eu… eu pude ajudar. Isso me basta. Não chega atrasado, desta vez. Não chega…

A frase não voltou. O peito fez um último ofício, mais fundo, e depois o ofício cessou como cessa um relógio quando ninguém dá corda, sem discurso, sem o atestado ainda, só o silêncio que a doutora já conhecia e que Anny Grace, na cadeira, levou um segundo a entender, porque o rosto dele ainda estava virado para ela, e os olhos, se não viam, ainda não tinham pedido desculpa por ir embora. Ela esperou. Chamou, baixo, senhor, depois August, depois o nome inteiro. A mão dela ficou na dele. A Keene entrou, chegou o ouvido ao tórax, esperou o que não vinha, e fechou a camisa com uma gentileza que o ofício às vezes guarda para o fim. Ned, no corredor, tirou o gorro. Anny não gritou. Chorou o choro que a casa do retrato já conhecia, o choro de quem fica quando o outro não fica, e encostou a testa outra vez no dorso da mão, que ainda estava quente, e disse, para ele, para a cortina, para a manhã que a doutora não tinha prometido:

— Eu ouvi. Vida boa. Eu ouvi.

Enterraram August Ward dois dias depois, no cemitério da vila de baixo, a terra já com geada rasa, o pinho ao redor como testemunha que não fala. A senhora Ellison veio com o bolo que ninguém pediu e com o rapaz do correio, e chorou de um jeito de vizinha, o jeito de quem já tinha visto o fogo dois outonos antes e agora via o resto da conta. A Keene veio de avental trocado. Ned segurou o chapéu. Briggs não veio, o que também era uma verdade. Anny estava de preto emprestado, o braço ainda na tipoia, os cachos presos, e pôs sobre a madeira uma folha dobrada, não um verso de conta, uma folha inteira, com o A de Anny e o W de Ward, nada mais, porque o resto ela ainda não sabia escrever sem a voz falhar. O retrato ficou na sala. A Remington ficou na cozinha. A casa, grande demais para um só relógio, aprendeu o ofício de ter uma respiração outra vez, só que agora a respiração sabia o nome das portas.

O advogado de Chippewa veio numa charrete, leu o papel da gaveta, e a casa, o celeiro, a bomba, o canteiro das roseiras mortas, o que restava de um homem de livro-razão, passaram ao nome dela sem leilão e sem Briggs. Anny Grace ficou. Não por dívida. Por teto, e por um retrato que ela não apagava, e por uma máquina que ainda cheirava a óleo fino quando ela tirava a capa de pano. O inverno do braço doeu em janeiro, como a Keene dissera, e ela escrevia mesmo assim, o carro da Remington andando, a letra desigual no começo, menos desigual depois, cópia de jornal primeiro, depois uma linha que era só dela, depois uma página, depois o tipo de coisa que um homem da cidade lê e manda dizer, por carta, que manda mais.

Quem conta esta história poderia saltar os anos do meio, porque neles quase não há cascavel e quase não há saco, e contudo foram esses anos que cumpriram a frase do quarto dos fundos. Anny Grace escreveu a casa, a lomba, o bar, a chuva, o que podia ser dito sem rasgar a segunda porta, e o que não podia ser dito ela guardou no caderno, para ela, como se guarda chave. Um jornal de Chippewa pagou pouco e pagou. Um de Milwaukee pagou mais. Houve um editor que quis o nome dela numa capa fina, um volume pequeno, o bastante para uma moça de vinte e dois, vinte e três anos, sentar-se à mesa da cozinha e contar, sem Briggs, o ouro que agora era seu. Não ficou rica do jeito que os Wards da região chamavam de rico. Ficou capaz. Capaz de lenha, de tinta, de um sobretudo que era dela, de mandar consertar o alpendre sem pedir ao rapaz do correio que ficasse além do chá. A Ellison ainda trazia bolo. A Keene ainda passava, às vezes, a olhar o pulso, a cicatriz pequena, e dizia que a senhora tinha ficado com o braço, o que, no vocabulário da doutora, era elogio.

No quarto inverno, quando o dinheiro deu, Anny Grace foi ao barracão na margem da estrada, o letreiro ainda tijolo, AND WHAT’S LEFT ainda à faca. Otis Briggs estava mais velho, o bigode mais amarelo, o avental ainda sem ficar branco, e olhou a moça no umbral como se o umbral tivesse trazido um fantasma vestido de gente. Ela não pediu whisky. Não pediu o inventário. Pôs sobre o balcão o que o editor tinha pago, contado, o bastante, e disse, com a voz que já não era miúda demais para aquele salão:

— O baio. Se ainda é o mesmo. Se o senhor não vendeu. Eu levo o animal, a rédea, o freio. O recibo pode ser no verso de alguma conta. Desta vez a conta é minha.

Briggs abriu a boca, fechou, e riu por o nariz, o riso curto sem o dente da frente, tentando o leilão e achando que o peixe agora era outro.

— Cavalo é cavalo, moça. Aquele já não puxa como puxava. O senhor Ward fez um dia estranho, naquele outubro. A senhora ficou boa de letra, ouvi falar. Letra não tira ferradura gasta.

— Eu sei da ferradura da frente esquerda. Não bate. Não deixa de beber à tarde. O preço está aí. O senhor conta, se quiser. Eu espero.

Ele contou. Não discutiu o bastante para virar outra história. No estábulo manco o baio estava mais magro, o pelo mais claro de idade, e mesmo assim virou a cabeça quando ela chegou, o olho escuro, úmido, a pergunta sem língua de quem ainda espera a maçã, a rédea, o nome que nunca teve além de baio. Anny não assobiou. Pôs a palma no pescoço, o segundo que August tinha durado naquele mesmo pelo, e desta vez havia maçã, no bolso do sobretudo, porque ela tinha aprendido que algumas dívidas se pagam em coisa doce. O animal soprou no colo dela. Briggs, à porta, fumou a vitória pequena de quem recebe ouro duas vezes pelo mesmo bicho e não entende que o segundo ouro é outro ofício. Ela levou o baio pela estrada, a carroça não, só o cavalo, e o travessão da casa de Ward, que fora anos um animal de ar, voltou a ter forma. À tarde ele bebeu. A ferradura da frente esquerda, de fato, gastava antes. Anny escreveu isso num canto de folha, não para vender, para o quarto dos fundos, se o quarto ainda ouvisse.

A vida boa, porém, não cabia só no pátio. Havia a cidade, havia o jornal, havia o tipo de recado que uma escritora responde em pé, na calçada, com a tinta ainda fresca na cabeça. Foi numa dessas idas a Chippewa Falls, o baio preso no travessão da hospedaria, o volume pequeno debaixo do braço, o sobretudo dela já sem parecer emprestado, que Anny Grace viu, contra a parede de um armazém, um menino de rua.

Tinha nove anos, talvez dez, o joelho furado na calça, as orelhas vermelhas de frio, um copo de lata com duas moedas que não faziam tilintar, e, no colo, um papel — o verso de um anúncio de arado, a letra de lápis curto, torta, teimosa, atravessando o preço impresso como se o preço não fosse o dono da folha. A boca fumava no ar de outubro. Os olhos, quando ela parou, fizeram o cálculo antigo, o cálculo de sobretudo e de mão, o cálculo de esmola. Anny conhecia aquele cálculo. Tinha sido, um dia, a conta no chão de um bar.

Ela parou na frente dele, a sombra caindo sobre o papel, e não puxou o copo. Perguntou, com a voz que um dia fora miúda demais para um balcão e agora cabia numa rua inteira:

— O que você faz?

O menino levantou o queixo, desconfiado do jeito que se desconfia de gente vestida, viu os olhos cinza, viu que ela não ria, e disse, simples, como se a pergunta merecesse resposta honesta:

— Estou estudando.

Anny olhou o copo, olhou o lápis, olhou a letra torta que insistia em ser letra mesmo assim. A pergunta seguinte não precisou de três pontos, nem de saco, nem de ampola. Precisou só do que um homem, numa cama de novembro, tinha pedido que ela levasse: a folha, e o bastante.

— Precisa de ajuda?