Sob a neve branca e silenciosa,
dorme a semente em seu pequeno chão;
não sabe o céu que, em terra misteriosa,
já se prepara a flor da estação.
O vento passa e canta entre os pinheiros,
sobre os campos cobertos de luar;
e os rios, presos em seus leitos frios,
sonham com águas livres para andar.
Não digas, pois, que a terra está deserta,
nem que morreu o verde sob o chão;
há uma vida invisível, ainda incerta,
guardando em si a antiga floração.
Pois a semente, em treva recolhida,
não teme a noite nem o longo inverno;
guarda em seu seio a promessa da vida,
como uma estrela em um silêncio eterno.
A neve cai, e a neve é sua guarda;
o frio vem, e o frio a faz esperar;
há coisas que somente o tempo aguarda para que possam um dia reinar.
E quando enfim o sol tocar a terra,
e a última geada adormecer,
romperá do silêncio, após a guerra,
a flor que o inverno soube proteger.
Então os campos, verdes, se abrirão,
e haverá flores onde havia neve;
e quem tiver sofrido a escuridão verá que a noite nunca dura para sempre.
E sob a terra, onde a luz não chega,
há uma antiga canção a florescer;
a raiz, sob a neve que a protege,
já sabe que é chegado o amanhecer.
E quando o tempo abrir suas estradas,
e o céu derramar luz sobre os montes,
hão de surgir, das terras congeladas,
novas flores, novas fontes, novos horizontes.
Porque nenhuma semente é esquecida quando a terra a recebe em seu mistério;
e aquilo que parece o fim da vida pode esconder o início de um império.
E quando enfim florescer a terra,
ninguém verá a luta sob o chão;
verão somente a rosa, bela e serena,
sem conhecer previamente a força da semente.