Escritores
Keyth Martins
Keyth Martins é uma pedagoga, escritora, apaixonada pela profundidade da alma humana e pelo poder transformador das palavras. Moradora de São Pedro da Aldeia RJ, escreve seus textos buscando acolher e inspirar leitores a encontrarem sua própria voz em um mundo repleto de ruídos, através de uma escrita leve e reflexiva, o cotidiano em poesia e resistência emocional.
Textos publicados
Na intrincada e fascinante jornada da vida, as quedas nunca foram meros desvios acidentais do trajeto; elas são, em sua essência mais profunda, o próprio caminho que nos molda, lapida e transforma por dentro. Quando nos deparamos com o fracasso ou com a frustração, é perfeitamente natural sentir o peso do desânimo e a vontade passageira de parar. Contudo, cair é a prova irrefutável de que estamos nos arriscando, saindo da nossa zona de conforto e nos movendo corajosamente em direção a algo muito maior. Cada revés carrega consigo uma lição silenciosa, uma oportunidade ímpar de reavaliar a rota, afinar a estratégia e endurecer a casca da nossa determinação.
O chão nunca será o nosso destino, mas apenas uma pausa forçada pelo cansaço do esforço. É preciso levantar-se com altivez, mesmo quando a mente duvida, encarando os obstáculos com a certeza íntima de que a resiliência humana é infinita e surpreendente. Afinal, não há vitória legítima sem o suor do trabalho duro, nem conquista genuína sem o risco constante da tentativa e da ousadia criativa em cada passo dado com convicção e alma.
Portanto, é preciso tentar outra vez, convertendo o erro em sabedoria acumulada e a barreira intransponível em forte impulso para o futuro. O sucesso que tanto admiramos nos outros raramente pertence àqueles que tiveram caminhos totalmente planos e livres de espinhos, mas sim aos que colecionaram cicatrizes com orgulho, sacudiram a poeira e continuaram caminhando com firmeza quando todos os outros teriam desistido. Faça as pazes com o seu próprio ritmo, sem nunca gastar sua energia preciosa se comparando às vitórias aparentes alheias; cada ser humano navega por tempestades invisíveis que o mundo jamais chega a conhecer profundamente.
Valorize cada micro progresso, lembrando que os vastos oceanos são formados pela união paciente de incontáveis e insignificantes gotas, e que o sucesso é construído no silêncio da rotina diária. Deixe que os seus sonhos mais puros sirvam de bússola e combustível, encontre alegria genuína no trajeto, celebre cada pequena vitória e nunca perca de vista a luz acesa no horizonte. No fim, o que definirá a sua grandiosa trajetória não será o número de vezes que você beijou o chão, mas a coragem inabalável de olhar para cima, esticar os braços e reerguer-se para mais uma nova tentativa. Acredite profundamente na sua voz interior, pois os obstáculos continuarão existindo, mas a sua capacidade inata de superá-los jamais terá limites para quem nunca para.
Na mala, minha mãe colocou três toalhas, um casaco que já não servia direito e um pote de doce de leite enrolado em jornal. Meu pai conferiu os documentos cinco vezes. Eu levei uma fotografia da casa, embora soubesse que a casa não cabia nela.
Saímos antes do sol. O interior ainda era uma faixa escura entre o café e a estrada. A cidade ficou para trás com suas ruas de terra, o sino da igreja e o cachorro deitado na sombra da venda. Também ficou uma parte da família que não se despede. Os mortos, os que não puderam ir, os que disseram “qualquer dia a gente aparece” e foram sumindo entre uma safra e outra.
A capital nos recebeu com barulho. Havia ônibus demais, prédios demais, gente atravessando a rua como se estivesse fugindo de alguma coisa. Meu pai conseguiu trabalho num galpão. Minha mãe começou a costurar para fora. Eu aprendi que o mapa não mostra só estados, rios e fronteiras. Existem territórios dentro da fala, no jeito de chamar alguém, no tempero que se procura no mercado, na palavra que sai quando a saudade aperta.
Por muito tempo, achei que pertencer era ficar no mesmo lugar. Pensava que raiz era o que mantinha a árvore parada. Depois percebi que algumas raízes vão junto com a gente. Elas viajam escondidas no jeito de fazer o arroz, na paciência que veio da avó, na irritação do pai, na música que a gente canta sem saber quando aprendeu. A raiz também pode ser uma mala velha atravessando a rodoviária, uma muda enrolada em pano úmido, uma foto amassada no bolso.
Na capital, fizemos um tipo de interior com o que tínhamos. Minha mãe plantou manjericão numa lata de tinta. Meu pai guardou por anos um pouco de terra dentro de um saco plástico, trazido da cidade onde nasceu. Não sei se era terra de verdade ou só um jeito de não deixar o chão sumir. Às vezes ele abria o saco e ficava olhando. Não falava nada. Talvez sentisse ali o cheiro de uma casa que já não era como antes.
Eu cresci entre dois ritmos. De um lado, as manhãs longas do interior, onde as notícias levavam tempo para chegar e as pessoas sabiam o nome das árvores. Do outro, a pressa da capital, onde até o descanso parecia ter hora marcada. Aprendi a passar por esses lugares sem me sentir completo em nenhum deles. Ou talvez completo justamente por isso. Feito de distância, mistura e contradição.
O Brasil que vive em nós não é uma bandeira ao vento. É mais difícil de levar. Está no corpo de quem se muda porque a terra não rende, porque o salário não dá conta, porque falta água, porque alguém fica doente, porque o futuro parece sempre estar em outro lugar. Está nos sotaques mudados na escola, nos nomes de família trocados pela pressa dos cartórios, nos bairros que criam pequenas pátrias com uma padaria, uma quadra e uma calçada onde as cadeiras aparecem no fim da tarde.
Também está no que abandonamos e nem tudo precisa ser resgatado. Existem violências que não devemos chamar de tradição, silêncios que não são sinais de sabedoria, casas onde pertencer era caro demais. Ir embora pode ser uma forma de perda. Mas, em alguns casos, é o primeiro jeito de sobreviver. Em certos momentos, deixar um lugar é dar espaço para que o corpo possa respirar.
Ainda hoje, quando volto ao interior, quase não reconheço o lugar. A estrada está diferente. A praça agora tem bancos novos. A antiga venda virou farmácia. Mas existe uma luz especial que bate nas paredes no fim do dia. Sinto o cheiro de lenha misturado com poeira. Meu corpo percebe antes de mim que chegou perto de alguma coisa.
Não volto para ver quem eu era. Volto para falar com o que ficou.
Levo comigo a cidade, seus túneis, suas filas e seus prédios acesos de madrugada. Levo os rostos que não conheço e aqueles que aprendi a amar no caminho. Abandono a ideia de que existe uma origem pura. Não há um lugar capaz de explicar tudo. Ninguém é feito de um único chão.
Somos deslocamento e memória. Somos o que cruza a fronteira, mas ainda a carrega. Somos a casa desmontada. Somos a janela que fica na lembrança. Somos o terreno que continua se movendo dentro da gente.
Talvez pertencer seja isso. Não ter um lugar que nos contenha por completo, mas ver, em diferentes paisagens, sinais de que algo nosso ainda está criando raiz.