Escritores
Eliane Santos
Eliane Santos é artista e escritora. Sua pesquisa visual e literária investiga as poéticas do tempo, a memória, o silêncio e as miudezas do cotidiano. Através de uma escrita sensível e atenta aos ritmos do corpo e dos espaços, constrói narrativas que buscam dar voz aos afetos, às marcas da ancestralidade e às delicadezas que resistem ao apressamento do mundo.
Textos publicados
Todo dia ela olhava pelo buraco na parede. Esperava ouvir o barulho agudo da buzina. Diante daquela fresta que se abria para o mundo lá fora, permanecia tranquila, quase sem movimento, fundindo-se à moldura da madeira descascada. Quem olhasse da rua via uma pintura antiga, desbotada e emoldurada no silêncio.
Ao redor dela, o tempo existia pela manhã, na hora do almoço e no fim de tarde.
Era a hora dos que iam para o trabalho em passos rápidos e dos risos das crianças que iam e voltavam da escola, logo engolidos pelo barulho dos motores dos carros. Sem pedir licença por aquela abertura de parede, as estações passavam. Às vezes, quando chovia forte ou o vento frio do outono e do inverno era demasiado, o buraco na parede precisava ser fechado. E esses eram dias longos; o tempo se perdia por dentro, no silêncio, e não se podia ouvir o som da buzina, nem das crianças, nem dos carros.
Em um dia de sol, lembranças de um tempo antigo a vieram visitar, trazendo a memória de quando as ruas ainda eram de terra. Perdida nesses pensamentos, uma borboleta entrou pelo buraco na parede e, antes de pousar, voou por todo o ambiente.
Ficou lá por um bom tempo, abrindo e fechando as asas coloridas e frágeis devagar, descansando do próprio cansaço. As borboletas iam e vinham. Ela olhava e pensava como deveria ser bom voar, alcançar o céu, sentir a brisa.
Era meio da tarde quando o som da buzina cortou o ar. Levantou-se devagar, caminhou até a janela, acenou e esperou. Era o som do padeiro. Ele já a conhecia e sabia que o portão estava aberto. O homem entrou e lhe entregou um embrulho de papel pardo.
Dentro, continha um doce de padaria, um sonho feito de açúcar. Ele sorriu e retornou, pois precisava trabalhar. Todas as vezes ela o acompanhava com o olhar, sabendo que ele ainda tinha outros encontros breves, todos embrulhados em papel pardo.
Ela voltou para a janela. O sol começava a se esconder e tudo ao redor parecia se transformar rápido demais. Percebia o mundo lá fora com todo seu som, ora silêncio ora barulhento, ora devagar ora veloz. Mas, através de sua janela, ela guardava o seu próprio tempo, um lugar onde conseguia sentir a luz do sol mudando de lugar através do voo da borboleta e do contorno do jardim.
Sentou-se na cadeira. Quando a noite finalmente caiu e as luzes da rua se acenderam, deixou uma fresta da janela aberta, permitindo que o vento da noite entrasse. E com ele veio o cheiro da chuva e um som distante, que ela não conseguia identificar.