Escritores
Dihny Carvalho Alves Mascarenhas
O amor pela escrita surgiu antes da leitura. Ainda na terceira série, com repertório limitado, descobri na folha em branco um portal para mundos possíveis e impossíveis, incentivada por minha mãe, minha primeira referência literária. O contato com clássicos veio no ginásio. José de Alencar despertou o fascínio pelas palavras. Depois, vieram Machado de Assis, Graciliano Ramos, Erico Verissimo e tantos outros, até que a vida acadêmica e profissional exigiu leituras técnicas, afastando-me temporariamente da literatura. A escrita, porém, permaneceu como minha confidente. Formada, inicialmente em Direito, busquei o curso de Letras, visando o aperfeiçoamento da escrita e ampliação do meu repertório. Desde a conclusão do curso, venho participando de inúmeros concursos literários e aqui estamos nós, mais uma vez!
Textos publicados
Chegou à frente da casa e percebeu que as luzes já estavam acesas. As vizinhas a esperavam no portão.
- Rita, pelo amor que você tem à sua vida, não entre. Seu marido chegou e pelo visto já quebrou tudo. Se você entrar, será a sua vez – disse Joana.
- Com certeza. Pensou consigo: mais um olho roxo seria difícil de criar qualquer desculpa para disfarçá-lo.
Catarina interveio:
- Rita, se você quiser, pode passar a noite na minha casa.
- Obrigada, Joana. Agradeço, na verdade, a vocês duas pela gentileza de me aguardarem aqui, por me alertarem, como sempre, dos perigos e por toda preocupação e carinho que têm comigo. Mas, eu não subirei. Passarei mais esta noite na garagem. Lá já tenho o meu kit de sobrevivência.
As amigas se despediram, mais confortadas, pois sabiam que João, o marido violento e beberrão de Rita, não incomodaria a esposa na garagem.
Não entendiam como aquela mulher, durante tanto tempo, suportava aquele casamento.
O fato, porém, é que Rita, por inúmeras vezes tentou recuperar João. Ela acreditava e torcia para que ele abandonasse a bebida. Havia levado o marido para os alcóolicos anônimos e ele até frequentara algumas reuniões. Ao final de alguns meses, porém, não resistiu. Acabou regressando aos bares. Rita sofria, não só porque ainda amava João e queria vê-lo bem, mas porque João também se revelava outra pessoa quando bebia. Ao chegar em casa embriagado, logo arrumava discussões destituídas de qualquer fundamento. Parecia discutir e criar caso, com ela, pelo simples prazer de perturbar sua paz, sua tranquilidade. Alterava o tom de voz. Nada estava bom, o almoço salgado demais, o jantar insosso demais. O suco doce demais. Recentemente, iniciou investidas de golpes, tapas e socos contra ela. Rita decidiu, então, que não ficaria mais na presença de João, quando ele chegasse em casa naquela situação. Como o marido, geralmente só chegava em casa à noite, já havia alguns meses que Rita passava suas noites na garagem. Lá era sua segunda casa. Tudo que precisava para uma boa noite de descanso mantinha naquele pequeno espaço: roupas limpas, toalha, água fresca, comida, colchonete, seus melhores livros, um criado mudo, uma mesinha de centro, algumas fotos e e alguns utensílios de cozinha. Na garagem existia também um pequeno banheiro e chuveiro com água quente. Assim, era possível que ficasse lá, sem gerar qualquer incômodo para as vizinhas amigas.
Aquela noite, então, seria apenas mais uma na garagem, se Rita não houvesse conseguido um emprego e um local para morar.
Após, andar, por quase um dia todo, batendo em várias portas, finalmente encontrou uma oportunidade, que mais parecia vinda do céu. Iria trabalhar, realizando serviços gerais de limpeza, no asilo da cidade. Teria um salário e também abrigo. Conversando com o diretor da instituição, ele compreendeu sua situação e ofereceu para que morasse lá, onde também poderia usufruir das refeições.
Com coragem, então, ao ingressar na garagem, lançando mão de uma pequena caixa de papelão, nela decidiu reunir apenas o que valeria a pena levar.
E o que levaria então?
Sentada, sobre a mesinha de centro, passou horas pensando sobre isso.
O que levar de todos aqueles anos de casamento?
O que levar de todos aqueles anos de convivência com João?
De repente, se deu conta que não havia nada para levar.
As melhores coisas já estavam em seu coração.