Escritores
Antonio Carlos Marques
Antonio Carlos Marques é titular da cadeira 26 da Academia Pelotense de Letras e titular da cadeira 145 da Academia Brasileira Rotária de Letras (ABROL). Agrônomo, Economista e Advogado (OAB 13.339), já publicou 19 livros. Colaborador de crônicas em jornais, escreve filosofias poéticas contempladas em diversos gêneros literários.
Textos publicados
Minhas roupas lá estavam e lá muito bem se postavam.
Seus sapatos descalçados parecia que estavam muito desconsolados.
Gravatas pretas dos dias de finados, finavam-se por sair e consentir.
Quererão ser lenços de abanos e de abandonados. .. Pobres coitados, momentos doúltimo adeus, de minha melhor gaveta de belas borboletas.
Roupas de verão, dos tempos das modas verdadeiras.
Roupão ou roupões dos meus tempos de lágrimas dos gelos do sul dos meus domínios. .. Onde moro, onde vivo, onde me canto sofrer, padecer, oras, rezas, enamoro-me do tudo e do nada, nesta minha íntima calçada. ..
Mas, voltando ao que interessa, a esta íntima conversa, minhas roupas, meus roupões, meus bidês e meus galopes de outono, internos estavam e ficavam. .. com saudades de mim!
Gavetas ocupadas queriam ser desocupadas.
Crisálidas em borboletas já transformadas. .. promessas de espera e de esperança.
Voanças querem ser e passearem e me passearem de novo, fato novo, roupa antiga, vestidos, camisas, espíritos deles, conversas delas. .. fofoqueiras de outras caminhadas e de antigos andares.
Será que ele virá? Que nos pegará? Quem será a escolhida, a preferida?
Sussurros de sapatos abaixo na calçadeira, lembranças de antigas festanças, de canchas de futebol. .. arrebol de pulseira da companheira, ao lado, no mesmo armário, seriam a porfia dos que desconfiam e que desconfiavam, que o amante ao lado, saíra e os procuraria, de novo, suas vestes, seus sapatos, suas roupas, seus calções, suas camisas e até suas pequenas camisetas.
Armário fechado, embutido, choroso, esperoso. .. Espera de confiança, de amanho daquele palhaço de pano. .. Do uso, de novo, daquela roupa de palhaço ou “smoking” do melhor aço. .. Da têmpera do caráter, de embuste, do disfarce. ..
Até que, num dia de claraboias abertas, a luz de abertura foi o fim para aquele mergulho de sepultura:
- O seu dono, o nosso dono, de pano, para nós, chegou com altiva voz:
- Vocês, de novo, peguem-me, vistam-se de mim, assim, assim mesmo, como quiserem e como melhor vos convém. .. A tudo digam amém, porque hoje é o meu dia de formatura. .. Formei-me da vida, formei-me de mim, enfurnei-me em meu entorno superior naquele canteiro do desterro, onde terão lembranças de mim. .. Enterrados alguns serão, outros no armário ficarão. .. Será que me chorarão?