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Rio de Janeiro, 13 de setembro de 1970.
A mesa de jantar estava posta como era costume aos domingos na casa de Marlene. Quando todos estavam satisfeitos, ela pegou a caixinha do cordão e colocou-a sobre a mesa.
“Alberto, não vou continuar com o nosso compromisso.” O namorado se levantou: “Marlene, vamos conversar lá fora.”
Ela ergueu a cabeça: “O que eu tenho a dizer para você será na presença da minha família para que sirvam de testemunhas da minha vontade. Meu não é não.”
Sua mãe exibia uma expressão de horror. Marlene sentia que perdia forças. Seu irmão Mário veio em socorro: “Olha Alberto, eu lamento, mas essa é a realidade. Retire-se por favor.”
6 meses antes
Marlene, 17 anos, segue apressada pela rua Dias da Cruz. Pensava em Alberto, um jovem vizinho que já tinha demonstrado um certo interesse nela. Chegando na igreja, abandonou esses pensamentos e buscou o seu lugar na formação do coral. Com a ajuda da regente, ela tinha conseguido uma vaga num curso de música na UFRJ, assim como a permissão da mãe.
No sábado à tarde, Marlene chegou ao Jardim do Méier com as amigas e menos de cinco minutos depois apareceu o Alberto de calça jeans, camisa gola rolê - desafiando o calor do verão carioca - cabelo estilo Roberto Carlos e um olhar determinado. Todo o grupo foi à carrocinha de pipoca. Na hora que Marlene foi pagar, Alberto pôs-se em sua frente e entregou o dinheiro ao pipoqueiro. “Deixa comigo. Eu faço questão.”
Ela sentiu-se envaidecida pelo gesto dele. Mas então lembrou-se de Eunice, sua colega de turma e irmã de Alberto. Um dia, na saída da escola, Eunice estava conversando com um colega quando Alberto passou e brigou com o rapaz, fazendo um escândalo. É bom ter um irmão para zelar por nós mulheres, pensava ela, mas aquela cena foi vergonhosa. Pensou em seu irmão, que seria incapaz de tratá-la daquele jeito.
Na segunda-feira seguinte, na porta da escola, Alberto já esperava por ela.
“Marlene, eu vou abrir meu coração para você. Eu queria saber se você quer ter um compromisso sério comigo. Eu passei no concurso do Banco do Brasil. Posso te dar uma boa vida.”
Ela ficou surpresa com a maneira direta que ele falou, afinal eles só tiveram poucos encontros esporádicos junto com outras pessoas. “Eu preciso pensar, Alberto.”
Ela se afastou lentamente. Disse a ele que precisava voltar para casa para ajudar a mãe no almoço.
Ela chegou em casa com a cabeça fervilhando. Achou melhor não contar para a mãe. Então esperou ansiosamente Mário chegar da fábrica.
“Marinho, o Alberto, irmão da Eunice da escola, me pediu em namoro.”
“Sério? Mas você gosta dele?”
“Não sei.”
“Então Marlene, diz que não está interessada. Não vá enrolar o rapaz.”
No domingo à noitinha toca a campainha na casa de Marlene. Antes de abrir a porta, a mãe foi chamá-la no quarto. “Chegou visita para você.” Marlene chegou na sala e levou um susto ao ver Alberto com uma caixinha de presente nas mãos. Ela resolveu abrir o pacote, cedendo ao constrangimento. Era um cordãozinho folheado a ouro, com um pingente de letra M. Antes ela estava decidida a recusar o pedido de namoro, mas pega de surpresa, em sua fragilidade adolescente, não conseguiu. Afinal estava sendo escolhida, conforme a opinião geral, por um rapaz bonito e que subia de nível social. Para piorar, seu irmão não estava em casa. Apenas sorriu tímida, o que bastou para Alberto como consentimento.
3 meses antes
Dentro do ônibus, Marlene voltava pensativa da escola de música. Estava no terceiro mês de curso e não só aprimorou suas técnicas de canto como descobriu em si outras habilidades. Àquela altura já colecionava muitos sonhos. No entanto, era preciso encarar a sua realidade. Seu namorado já havia avisado que após o casamento não poderia continuar seus estudos.
2 dias antes
Na saída da escola, Marlene ouviu alguém buzinando insistentemente. Era Alberto, dentro de um Opala azul novinho.
“Entra logo que eu preciso te deixar em casa e voltar ao trabalho.”
“Eu não vou pra casa, esqueceu que hoje tenho o curso no Centro?”
“Você ainda está insistindo nesse curso inútil? Entra logo.”
“Tchau, Alberto.”
Ele conseguiu agarrar seus cabelos de dentro do carro, puxando com força e gritando ofensas. Ela conseguiu se desvencilhar antes de ele arrancar cantando os pneus.
Nova Friburgo, 21 de setembro de 1973.
Marlene sai do trabalho e caminha pela praça Getúlio Vargas. Há exatos três anos, Mário a levava à rodoviária, carregando o que coube de seus pertences em uma mala, para sair às pressas do Rio de Janeiro em direção à região serrana, onde uma irmã de seu falecido pai a acolheria. Ninguém além do irmão soube de seu paradeiro por muito tempo, nem mesmo sua mãe. Ela não arriscou ficar e pagar para ver se Alberto cumpriria suas ameaças. Além disso, ele fez uma grande campanha de difamação, o que tornaria difícil para ela ter uma vida social no Méier. Graças ao apoio da tia ela conseguiu um emprego modesto no comércio e teve a paz necessária para estudar para a prova dos correios, onde ingressou em janeiro de 1972. Seguia sem namorados. Quanto ao Alberto, logo depois do fim do namoro deles se casou com Edna, prima de Marlene, que não escondia seu interesse por ele.
Perdida em seus pensamentos, ela quase passou direto pela padaria onde ficava o telefone público. Quando vagou o aparelho ela pôs as fichas e discou o número do trabalho de Mário.
“Oi, Marinho, sou eu.”
“Oi, Leninha! Tudo bem? Como está a tia?”
“Está ótima, mandou um beijinho pra você. Tenho uma boa notícia: já estou com dois alunos de música no sábado!”
“Que legal! Eu te disse que você podia correr atrás do seu sonho, um dia de cada vez. Mas eu tenho uma notícia triste para te dar. A Edna faleceu. Parece que ela caiu da escada e não resistiu aos ferimentos. Mas dizem que aconteceu outra coisa. Você deve imaginar o quê.”
Marlene ficou em silêncio por alguns segundos, com um nó na garganta.
“Marinho, já tem mais gente na fila. Deixa só dizer uma coisa. Você foi o pai que me faltou. Te amo muito meu irmão.”