Escritores
Altair Maciel
Altair Maciel é paulista, poeta, escritor, compositor e criador da Revista Semeando Cultura, dedicada à literatura, à arte e à cultura. Possui mais de 600 textos publicados no site Recanto das Letras, onde mantém sua produção literária desde 2007. Entre suas participações e seleções em publicações literárias, destacam-se a 1ª Antologia Poética de Londrina (2010); a seleção, entre 522 poemas inscritos, de um de seus poemas para integrar os 60 textos publicados no 7º Prêmio Scortecci de Poesias (2025); a Antologia Nacional Universo da Poesia – Vol. X, organizada por Ademir Pascale (2026); e a Antologia Poética Língua de Pedra (2026), da Editora Desarquiva. Sua produção transita pela poesia, literatura e música, tendo como temas recorrentes a memória, os sentimentos, o cotidiano e as experiências humanas.
Textos publicados
A casa parecia menor do que Joaquim lembrava. Parou o carro diante do portão enferrujado e ficou algum tempo sem desligar o motor. Na esquina, a placa ainda dizia Rua das Hortênsias. O azul das letras havia perdido a força, mas o nome permanecia. Fazia trinta e seis anos que Joaquim deixara São Bento do Sapucaí. Tinha vinte e dois quando partiu. Uma mala pequena, algum dinheiro no bolso e a impressão de que o mundo começava depois da serra. Agora, aos cinquenta e oito, voltava porque a casa seria demolida. Em São Paulo, morava num apartamento da Rua Apeninos. Tinha paredes brancas, móveis planejados, piso frio e uma janela que enquadrava outros edifícios. Gostava da casa. Era silenciosa por dentro. Tudo tinha lugar. Mas nenhuma parede sabia seu nome. Desligou o carro. A antiga casa ainda guardava na fachada um resto do azul-claro de outros tempos. O portão rangeu quando o empurrou. No jardim, a goiabeira continuava torta, embora agora os galhos se curvassem mais perto do chão. Joaquim abriu a porta. O cheiro veio primeiro. Madeira velha, poeira, umidade. E, por baixo de tudo, alguma coisa da cozinha. Ficou parado no corredor. A sala estava quase vazia. No canto onde ficava o rádio, ainda havia a tomada. Joaquim olhou para ela e ouviu, por um instante, o futebol de domingo. O pai sentado na cadeira, o corpo inclinado para a frente, a mãe indo e vindo entre a cozinha e a sala.
Na parede, dois furos. Ali estivera a fotografia da família. Ele não se lembrava de quem a havia retirado. Lembrou-se apenas de que, naquela fotografia, todos ainda estavam. Foi até o quarto. A cama velha permanecia. O armário também. Passou a mão pela madeira e lembrou das noites de chuva, quando ele e o irmão ficavam acordados escutando o telhado. Nando aparecia no dia seguinte para chamá-los para jogar bola. Beto queria ser jogador. Celso dizia que seria caminhoneiro. Nando morreu antes dos trinta. Beto foi para Manaus e ficou por lá. Celso cumpriu a promessa e passou a vida entre estradas. O irmão estava em Curitiba. A irmã, em Campinas. Joaquim não sabia dizer em que momento aquela turma deixara de caber na mesma rua. Na cozinha, os azulejos brancos estavam rachados. Uma torneira pingava. Ele se apoiou na pia. Por um instante, esperou ouvir a voz da mãe. Joaquim. Virou-se. Nada. Só o corredor vazio. Sobre a mesa ainda havia uma pequena mancha escura na madeira. Talvez café. Talvez outra coisa. Passou o dedo sobre ela e sorriu. A infância estava escondida em coisas que ninguém teria motivo para guardar.
Uma mancha. Um cheiro. Um ruído. Uma voz que já não existia. Voltou para o corredor. Foi então que viu a marca. Uma linha horizontal, quase apagada, atravessava a tinta na altura de seu ombro. Aproximou-se. Havia outra abaixo. E outra. Sob as camadas de tinta, uma inscrição resistia: Joaquim — 11 anos. Ele não precisou pensar. A lembrança voltou inteira. O irmão segurava um lápis sobre sua cabeça. — Fica reto. Joaquim estava encostado na parede, tentando não rir. Nando esperava do lado de fora. O irmão fez o risco. Depois escreveu o nome. A mãe apareceu na porta da cozinha. — Vocês vão acabar com essa parede. Ele se afastou para olhar a marca. Tinha onze anos e aquela altura parecia enorme.
Joaquim encostou a palma da mão sobre o risco. A tinta era áspera. Por baixo dela estava o menino. O menino que ainda não sabia que um dia iria embora. Que não sabia que o pai morreria, que a mãe envelheceria, que Nando não chegaria aos trinta, que Beto atravessaria o país e que os quatro meninos daquela rua acabariam espalhados por lugares diferentes. Não sabia que voltaria ali aos cinquenta e oito anos para encontrar seu próprio nome escondido sob várias camadas de tinta. Naquele instante, o apartamento da Rua Apeninos lhe pareceu muito distante. Pensou nas paredes brancas de sua sala, tão limpas que pareciam não ter passado. Naquela casa, cada parede carregava alguma coisa. A cozinha guardava a voz da mãe. O quarto guardava as noites de chuva. A sala guardava o rádio do pai. O corredor guardava um menino. Joaquim percebeu que não eram as paredes que estavam velhas. Era o tempo que havia passado por elas. Pegou uma fotografia do pai, o caderno da mãe e o relógio guardado numa gaveta. Encontrou também a fotografia dos quatro meninos: Joaquim, Nando, Beto e Celso. Não levou mais nada. Antes de fechar a porta, voltou ao corredor. Passou a mão sobre a marca uma última vez. Desta vez não tentou ler o nome. Já sabia.
Saiu. Entrou no carro e deu a partida. Ao deixar a Rua das Hortênsias, olhou pela janela. A parede azul desbotada. A janela de madeira. A goiabeira torta. O portão enferrujado. Tudo foi ficando menor. Joaquim continuou olhando pelo retrovisor até a curva esconder a casa. Depois voltou os olhos para a estrada. No retrovisor, a casa diminuía. Dentro dele, o menino de onze anos ainda esperava Nando do lado de fora.